OS SONHOS NÃO DEVEM MORRER (Á MEMÓRIA DE PADRE SÁTIRO).POR MARCOS ARAÚJO.

*Os seus sonhos não devem morrer: súplica em favor da memória de Padre Satiro Cavalcanti Dantas*

O lisboeta Fernando Pessoa, por meio de um dos seus heterônimos, Bernardo Soares, poetizou certa feita sobre o dever de sonhar: *”Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.” E arrematou, adiante: o homem tem o tamanho do seu sonho.

​O sonhador que se preza oferece a sua vida pela realização dos objetivos idealizados. Joe Darion e Mitche Leigh, compositores americanos, escreveram uma linda canção sobre essa doação, chamada “The Impossible dream”, que aqui no Brasil foi versionada por Chico Buarque e Ruy Guerra como “Sonho impossível”, gravada por Maria Bethânia. Uma passagem pungente ecoa na bravura do sonhador: “E amanhã, se esse chão que eu beijei For meu leito e perdão /Vou saber que valeu delirar e morrer de paixão.”

​Graças aos sonhadores a humanidade se aperfeiçoa. A história registra um discurso de um grande sonhador numa manhã de 28 de agosto de 1963, o pastor americano Martin Luther King, que durante uma marcha em direção a Washington, perante 250 mil pessoas, começou dividindo o seu sonho (“I Have a Dream” – eu tenho um sonho). Essa expressão serviu de inspiração para titular uma canção do grupo sueco ABBA. 

O Brasil cresceu pela materialização do pensamento e da ação de muitos sonhadores. Pernambuco ofereceu Josué de Castro ao mundo, para idealizar o fim da pobreza e das desigualdades regionais. Quase recebeu o Nobel da Paz, mas, tido como comunista, foi rejeitado pelos conselheiros do Instituto Alfred Nobel. Minas Gerais pariu o sociólogo Betinho de Souza, criador da campanha nacional de combate à fome. O Rio Grande do Norte também marcou história: do Alto Oeste veio Sátiro Cavalcanti Dantas, o mais prolífico e eficiente educador que pisou nosso solo. Se Henrique Castriciano foi relevante na educação privada, Padre Sátiro foi mais longe ao conjugar simultaneamente a transformação em três setores da educação: a educação privada, a pública e a formação profissional.

​Com passagem inicial no Colégio Diocesano Santa Luzia, como Diretor introduziu o dever da solidariedade e da dimensão social da igreja, auxiliando centenas de alunos pobres. Foi tão pródigo em concessão de bolsas que houve época onde a quantidade de alunos bolsistas era quase igual aos que pagavam mensalidades. Se eram esquálidos os dividendos financeiros para a Diocese, em compensação, os “lucros” sociais eram imensuráveis. Por sua intervenção, milhares de ex-alunos bolsistas se profissionalizaram e galgaram relevantes postos funcionais. 

Depois, ao ser conduzido ao cargo de Reitor da extinta Fundação Universidade Regional do Rio Grande do Norte, a FURRN, uma fundação privada concebida para ser um “curral” eleitoralista, teve a coragem e o denodo de assumir uma cruzada para expungir a instituição do jugo servil da política partidária, A “ferro e a fogo”, obteve a sua estadualização. Por sua luta, as portas do saber foram abertas oportunizando aos filhos dos agricultores uma outra forma de transformação social. E o seu vetor incluiu igualmente a educação fundamental, com pequenas escolas, como a Erondina Cavalcanti Dantas, Colégio Dom Costa, Colégio Centenário…

​No campo social, se voltou para além daquilo que a missão sacerdotal exigia. Foi artífice da criação de uma lei para os mototaxistas, sendo Mossoró um dos primeiros municípios do país a ter uma lei reguladora da atividade. Outro feito lembrado é que, tendo o Corpo de Bombeiros interditado a Casa do Estudante de Mossoró por causa da queda de parte do seu telhado, comprometendo a moradia de 140 jovens, ele, de imediato, encabeçou um mutirão para a reconstrução daquele ambiente. 

​Cobrava intensamente dos gestores públicos melhorias nos equipamentos urbanos. Assisti por diversas vezes a sua interlocução como ventríloquo comunitário no desejo da construção de Postos de Saúde, quadra de esportes, escolas, creches, melhoria de vias públicas, iluminação etc. Não bastava ter criado o Mosteiro Fraternidade São Francisco de Assis, a primeira FM educativa do Estado, o santuário dedicado à Santa Clara, oito escolas que foram depois inseridas no sistema municipal de ensino, o centro social e comunitário Madre Cecília, a Funsern, a urbanização de um bairro inteiro (o Dom Jaime Câmara)…

​Com 93 anos, se achava no dever de continuar sonhando. Por último, estava intervindo junto às Universidades públicas para dotar o Município de Pau dos Ferros de um Curso de Direito. Primeiro, bateu à porta da UERN, quando o Reitor ainda era Pedro Fernandes. Comunicado da falta de recursos do Estado, se voltou para a Reitora Ludmila, da UFERSA, à procura de recursos federais. Para sua instalação, necessitava de custeio do MEC. Andou falando insistentemente com Prefeitos e Deputados para tal concretização. 

​Benjamim Disraeli, um escritor inglês, gostava de dizer que “a vida é muito curta para ser pequena”. Padre Sátiro devia pensar assim, pois alongou o quanto pôde a sua existência para atuar cada vez mais em favor da sociedade, especialmente dos mais humildes.

​Ele era um dos últimos bastiões da Igreja católica que em um passado soube dimensionar a importância da caridade, da fraternidade, da partilha, da assistência social e da oportunidade aos desvalidos. Sabiamente, ele escolheu a educação como viático da redenção social do pobre. Num momento em que escasseiam os exemplos de homens públicos vocacionados para o bem-estar comum, sua ausência fará muita falta. Para uma sociedade ressentida de alteridade, de amor ao próximo, sua lacuna dificilmente será preenchida.

Voltando ao tema sonhos, ele adorava a música “I Have a Dream”, ao ponto do grupo Incanto (ACJUS), tê-la incorporado ao seu repertório. Pensando nele, destaco que a canção tem uma frase que lhe é aplicável: “I believe in Angels” (eu acredito em anjos). Ele foi “anjo” sem asas para milhares de alunos-bolsistas e para os funcionários do Colégio Diocesano Santa Luzia, para os estudantes uernianos, para as freiras do Mosteiro, para os comunitários do bairro Dom Jaime Câmara, para os estudantes da Casa do Estudante de Mossoró, para os mototaxistas, para o Município de Mossoró, para o Estado do RN e ao alcance do Brasil.

​Os seus sonhos se materializaram e se multiplicaram nas pessoas sem perspectivas de ascensão social, porque elas puderam ver luz nas oportunidades que apenas a educação pode proporcionar. É o sonho se transmudando em concreta esperança. Por ele, ou pelas ações dele, muitos descortinaram a escuridão que nublava a luz do horizonte.

​Sem sonhos, a vida é “asséptica”, o disse recentemente o Papa Francisco. E conclamou: “Todos temos necessidade de sonhar. Conscientemente ou inconscientemente.” Sem sonhos, não há esperança. O Cardeal Suenens afirma sempre “A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade.” 

​Que os sonhos de Padre Sátiro sejam retroalimentados pelas chamas da nossa esperança e vivificados nas atitudes daqueles que o admiravam. A maior homenagem que podemos fazer a ele é garantindo que as suas criações, seus projetos e suas iniciativas, não conheçam o ocaso por falta de apoio. Padre Sátiro não será esquecido se Mossoró e o Rio Grande do Norte se empenharem na preservação e continuidade dos seus sonhos. Somente assim sua memória nunca perecerá, e seu espírito permanecerá em nosso meio. 

​Vida eterna à Padre Sátiro!

Pelo professor , advogado dr. Marcos Araújo-

Foto Ricardo Lopes .