{"id":19076,"date":"2022-12-29T10:24:34","date_gmt":"2022-12-29T13:24:34","guid":{"rendered":"https:\/\/wandilsonramalho.com.br\/blog\/?p=19076"},"modified":"2022-12-29T10:24:36","modified_gmt":"2022-12-29T13:24:36","slug":"a-intelectual-angela-rodrigues-escreveu-leiame-show","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wandilsonramalho.com.br\/blog\/?p=19076","title":{"rendered":"A INTELECTUAL \u00c2NGELA RODRIGUES , ESCREVEU !LEIAM!\u00c9 SHOW !!"},"content":{"rendered":"\n<p>PRECISAMOS REENCONTRAR O SIL\u00caNCIO<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c2ngela Rodrigues Gurgel<\/p>\n\n\n\n<p>Autora de Ensaio Po\u00e9tico e Confiss\u00f5es Cr\u00f4nicas, uma das idealizadoras da confraria Caf\u00e9 &amp; Poesia.<\/p>\n\n\n\n<p>angelargurgel@gmail.com<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a>Todos n\u00f3s precisamos de um tempo para arrumarmos as nossas gavetas e por\u00f5es. Um tempo para abrir a janela que revela o mundo al\u00e9m de nossos muros. Um tempo para (re)avaliar tudo que estamos incorporando \u00e0 nossa hist\u00f3ria e separar o que, de fato, nos pertence(?) e o que estamos levando apenas por h\u00e1bito ou comodismo. Um tempo que nos permita silenciar para ouvir apenas o som dos nossos pensamentos. Sim, estamos carentes de sil\u00eancio. H\u00e1 muito barulho l\u00e1 fora e, aqui dentro, ecoam os gritos de euforia, de tristeza ou de dor. Precisamos, pois, de um momento para n\u00e3o dizer nada, para ouvir nossos pensamentos, amadurecer as ideias e, s\u00f3 ent\u00e3o, avaliar se temos algo interessante a dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria algo parecido com o que Freud chamava a \u201cevolu\u00e7\u00e3o silenciosa\u201d. Um tempo de espera onde, embora n\u00e3o pare\u00e7a, muitas coisas acontecem; afinal, o tempo n\u00e3o para e cada minuto \u00e9 carregado de m\u00faltiplas e diversas sensa\u00e7\u00f5es que tecem as linhas que desenham o mapa de nossa caminhada. Na tessitura silenciosa dos dias nascem as palavras que criam a poesia e inventam o texto \u2013 prosa ou poema elas n\u00e3o t\u00eam nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o em seguir as regras gramaticais. Querem apenas registrar o que sentem. Resgatar mem\u00f3rias e criar cumplicidade entre quem l\u00ea e escreve. Estabelecer uma conex\u00e3o entre o sil\u00eancio do leitor e do escritor.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempos em que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez mais r\u00e1pida n\u00e3o temos tido tempo para assimilar todas as informa\u00e7\u00f5es que recebemos. H\u00e1 muita informa\u00e7\u00e3o e pouca comunica\u00e7\u00e3o. Falamos, mas n\u00e3o expressamos nossos pensamentos; escutamos, mas n\u00e3o ouvimos o que o outro diz. H\u00e1 muito ru\u00eddo, muito barulho e pouco harmonia nos sons que chegam at\u00e9 n\u00f3s. Precisamos, a exemplo de Mia Couto, de afinar nossos sil\u00eancios. Segundo ele \u201ctodo o sil\u00eancio \u00e9 m\u00fasica em estado de gravidez\u201d. Assim, vez por outra, precisamos ser \u201cafinadores de sil\u00eancios\u201d e exercitar a arte de \u201ctecer os delicados fios com que se fabrica a quietude\u201d deixando brotar um sil\u00eancio capaz de nos ensinar um novo jeito de olhar o outro e a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso deixar o sil\u00eancio traduzir nosso encantamento pela vida e, s\u00f3 depois, verbalizar as belezas por ele reveladas. Deixar que o sil\u00eancio fotografe a vida, tantas vezes vestida de barulhos, e traduza toda grandeza tantas vezes ignoradas pelas palavras que lan\u00e7amos apressadamente sobre o papel. Engana-se quem pensa que o sil\u00eancio \u00e9 algo abstrato. Inating\u00edvel. O poeta Manoel de Barros conta-nos um pouco sobre a \u201cconcretude\u201d desse sil\u00eancio, t\u00e3o necess\u00e1rio quanto revelador, em sua poesia \u201cO Fot\u00f3grafo\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>Dif\u00edcil fotografar o sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto tentei. Eu conto:<\/p>\n\n\n\n<p>Madrugada a minha aldeia estava morta.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se ouvia um barulho,<\/p>\n\n\n\n<p>ningu\u00e9m passava entre as casas.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estava saindo de uma festa.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram quase quatro da manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Ia o Sil\u00eancio pela rua carregando um b\u00eabado.<\/p>\n\n\n\n<p>Preparei minha m\u00e1quina.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio era um carregador?<\/p>\n\n\n\n<p>Estava carregando o b\u00eabado.<\/p>\n\n\n\n<p>Fotografei esse carregador.<\/p>\n\n\n\n<p>Tive outras vis\u00f5es naquela madrugada.<\/p>\n\n\n\n<p>Preparei minha m\u00e1quina de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Fotografei o perfume.<\/p>\n\n\n\n<p>Vi uma lesma pregada na exist\u00eancia mais do que na pedra.<\/p>\n\n\n\n<p>Fotografei a exist\u00eancia dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Vi ainda um azul-perd\u00e3o no olho de um mendigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fotografei o perd\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Fotografei o sobre.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi dif\u00edcil fotografar o sobre.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim eu enxerguei a Nuvem de cal\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Representou para mim que ela andava na aldeia de<\/p>\n\n\n\n<p>bra\u00e7os com Maiakovski \u2013 seu criador.<\/p>\n\n\n\n<p>Fotografei a Nuvem de cal\u00e7a e o poeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m outro poeta no mundo faria uma roupa<\/p>\n\n\n\n<p>mais justa para cobrir a sua noiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A foto saiu legal.<\/p>\n\n\n\n<p>(Manoel de Barros)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PRECISAMOS REENCONTRAR O SIL\u00caNCIO \u00c2ngela Rodrigues Gurgel Autora de Ensaio Po\u00e9tico e Confiss\u00f5es Cr\u00f4nicas, uma das idealizadoras da confraria Caf\u00e9 &amp; Poesia. angelargurgel@gmail.com Todos n\u00f3s precisamos de um tempo para arrumarmos as nossas gavetas e por\u00f5es. 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